sexta-feira, 16 de março de 2012

[Leslie]

postumamente desenhas-me o rosto
te apresentas por fluido espesso e belo
não te acorrento e em tudo faço esforço
por guiar-te os dedos, penetrar-te o ego

acaso causal não pouco o contemplo
e se o faço, em figo a saboreio
viva estás em todos meus devaneios
nas saudosas noites rubras e cálidas

o calor das selvagens investidas
que amarga os ponteiros anseio
a esmo pairo e soluço sem esteio

"oh! tempo e vento atendam-me o intento"
aos deuses todos por tua vida apelo
mas és sonho a encher-me de desgosto

quinta-feira, 15 de março de 2012

[Projeções]

Anacreonte:
não se sabe o porquê de tanto medo
qual o motivo desse hesitar já planejado?
decerto, não temo os engasgos dos teus beijos
muito menos os afagos dos teus braços!

Aletheia:
então entrega-te a ti
pois tudo que o vento toca
à alma encanta
mas pouco me espanta
teu tardar refratário...

segunda-feira, 12 de março de 2012

[Sátyroi]

quando chegar em casa
farei um violão milimetrado em papel madeira.

não cantarei Helena nem Vênus -
não uma lira!
antes um sambinha boêmio.

sambinha do meu Avô.
das tardes, noites e manhãs embreagadas,
das madrugadas de mesas e camas fartas,
das ações simbiontes no emaranhado de pernas...
do dedilhar safado e descomprometido,
dos agudos em escala de gemido,
do final toante de um jorrar desvairado.

[Multicoloridos]

as prevenções provenientes das experiências ruins...

não construirei um mundo de lances e jogadas obscenas
os eternos momentos torpes já não são cultivados por mim
o silencio das nuvens alvas são carretéis de sonhos
as relíquias escondidas nas nuvens negras são vestes d'Arlequins

[Coprêmese]

belo mundo-éter vadio!
pintado em tons de anil... disfarçando a nuance voraz que o recobre!
consome a nós todos, assim como o consumimos.

[Estóicos]

"Escreveram-se volumes imensos, debitaram-se sentimentos diversos sobre a origem
desse culto rendido a Deus ou a vários deuses sob figuras sensíveis: esta multitude de livros
e de opiniões não atesta senão ignorância. Não se sabe quem inventou as vestes e os
calçados e quer-se saber quem primeiro inventou os ídolos?"
(Voltaire)

cachorros ladram no interior de mentes inférteis
religiosos esperneiam no âmago de suas almas vis
todos rogam por um dia feliz
para deuses que uns e todos os outros vos julga estéril